Foi o meu pai quem me deu os primeiros conselhos minimalistas para a maternidade. Há uns anos perguntei-lhe o que é que lhe parecia fundamental para que ser pai fosse uma coisa maioritariamente boa. Prático, respondeu-me que basta simplificar a logística: “diminui o máximo que conseguires a quantidade de coisas que tens em casa e nunca marques nenhuma atividade que não fique perto de casa, perto da escola, ou no caminho entre as duas”. A minha mãe, que aos dois anos me ensinou a aquecer o biberão no microondas e me deixava vestir e calçar sozinha, acrescentaria que quanto mais independente a criança, melhor para todos.
A esta base construída pelos meus progenitores, acresce o facto de que eu não fui mãe sozinha. Foi uma escolha que fiz conscientemente, esta de casar com o Martim e de o escolher para pai da minha filha. Com ele vem toda uma atitude laissez faire, laissez passer perante a vida que eu tanto precisava que me contagiasse. E contagiou. E ainda bem. Nunca seria uma mãe tão descontraída – e minimalista – sem este pai. Nesta viagem que estou a fazer com ele aprendi que:
O minimalismo não é sobre tralha, é sobre valores. Acredito que as melhores dicas que posso dar sobre minimalismo na maternidade não são sobre ter menos coisas (o que não deixa de ser fundamental) mas sobre valorizar mais as relações familiares. Por muito que nos esforcemos (e esforçamos!) continuamos a ter cá em casa coisas que não queremos – um presente inconveniente, alguns consumíveis descartáveis, biberões de plástico, roupas a mais. Mas o sucesso da nossa abordagem não depende de fazer estas coisas desaparecerem. O fundamental do minimalismo é conversar, constantemente, sobre o que realmente importa, em nossa casa e com as nossas famílias. Falar sobre o que é necessário, sobre porque possuímos estas e não outras coisas, porque fazemos as coisas desta e não de outra maneira. E, assim, desafiarmo-nos a mudar o que descobrimos que não está bem e melhorarmos continuamente, o resto da vida.
Pais minimalistas dão o exemplo. Vamos os três para a cozinha ao final do dia fazer o jantar. Comemos todos a mesma comida, sentados à mesa. Todos os dias a Aurora vai com um de nós passear a cadela à rua, apanhar sol, respirar ar puro. Cantamos, tocamos música, lemos, brincamos juntos. Vamos à serra, ao campo, à praia, ao parque andar de baloiço. Organizamos serões com amigos em que se conversa muito, ouve-se música e se jogam jogos – e a Aurora participa até cair de sono. Se queremos ensinar a Aurora a investir mais tempo do que dinheiro na sua felicidade, temos que lhe mostrar como se faz, todos os dias.
Educamos para o desapego. O dela e o nosso. Todos os objetos que possuímos podem desaparecer, estragar-se, perder-se. E isso não deve ser tão traumático quanto perder uma pessoa. Por muito valor sentimental que depositemos num objeto não devemos fazê-lo valer pelo que representa – uma foto não é o mesmo que uma memória, um brinquedo não é o mesmo que um abraço. Desapegarmo-nos de um objeto quando nos apegamos a outro ajuda-nos a treinar isso mesmo: cá em casa, a Aurora só pode ter 10 brinquedos, o que significa que quando entra um novo, outro tem que sair. O mesmo acontece com os meus sapatos ou as gadgets do meu marido. Acumular posses não nos torna melhores, só nos faz perder mais tempo a limpar o pó. E, por isso, muitas vezes repito afirmações que reafirmam à Aurora que valemos pelo que somos, não pelo que temos. Relembro-a que está segura, é saudável, sábia, forte, capaz, bonita, amada e feliz.
por Joana Guerra Tadeu
Para continuar a ler este artigo, aceda por favor ao N.º 1 da Raízes Mag, dedicado ao Minimalismo. Poderá fazer o download deste número aqui.

Sobre a autora
Joana Guerra Tadeu, “a minimalista”, trabalha como consultora para o empreendedorismo e a gestão da mudança em projetos com objetivos ecológicos.
Dedica-se a divulgar um estilo de vida consciente, a celebrar e apoiar o consumo consciente e a produção ética e a promover o trabalho de artesãos, ativistas e outros empreendedores com projetos felizes, justos e sustentáveis. É a mulher dos sete ofícios e o melhor mesmo é acompanhar o que anda a fazer nestes canais:
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